A Valsa, de Casemiro de Abreu, declamada por Dado Carvalho

A Valsa

Deixe um comentário

Arquivado em Poesia

CONTOS DO CAOS – POETA EM FUGA

Fuga através do espelhoGostaria eu de que meus braços abarcassem tão somente esperanças, paz, bênçãos e outras preciosidades. Gostaria de que meus olhos não precisassem se afastar de tantos horrores que povoam as telas da nossa realidade. Andar por aí vendo atrocidades,meninos sem carrinhos nem bilboquê e mães com dez anos de idade,faz mal aos olhos do poeta.

 

 A loucura é planetária, o sangue corre desde as neves do oriente até a calçada desenhada de ondas, docemente  lambida  pelo mar dos cariocas. Mas meus braços não podem nem querem abarcar todos os males do mundo, pelo contrário, tenho de abri-los o mais que puder, como o faz o senhor de cimento no pico do morro, e  clamar, clamar sempre até que uma grande mão estapeie a face do mundo e uma voz tonitroante qual a de Xerxes grite:

 

 — Basta!

 

 Chega de sangue e cacos de vidro pelo asfalto; nada de cartazes, nada de  balas, nada de dor.

 

 Entretanto, somos poetas e, com tudo isso, ainda teimamos em rimar. Rimados ou não, metrificados ou não,teimamos no direito de acreditarque um dia haverá flores nesses jardins de fumaça. Tecemos versos esperançosos, mas também tecemos versos de revolta,de contrariedade,  e até de… medo.
 Entretanto, faltam-nos ouvidos(de preferência sem fones), falta-nos a atenção,  porém, todos estão correndo, apressados, apertados,  cansados, estressados. Falta-nos cabeças  tranquilas que bem  absorvam nossas mensagens, que atendam nossos pedidos,que vejam em nossos braços abertos um gesto significativo;o prelúdio de um abraço, o prefácio da   conciliação,o introito da igualdade.

 

 Eis que depois de tanto grito, de  tanto  apito , de tanto jogo, de tanto fogo,  de tantas lágrimas, resolvo. Enfim, resolvo. Só preciso de uns potes,uns potes de  vidro,desses que vem com maionese, palmito ou azeitonas.Vou lavá-los bem, enxugá-los bem… Num deles aprisionarei algumas estrelas que eu mesmo farei, recortadas em papel. Uma fatia de lua, feita com o mesmo papel, caberá num outro. Num terceiro, guardarei um pouco de brisa perfumada, que consegui com um pequeno jato de perfume. Num quarto vidro, guardarei alguns chumaços de algodãopara fazer papel de nuvens brancas.Depois disso, farei minha mala.Além dos vidros, colocarei nelaapenas dois livros, um caderno e uma caneta. Fecharei minha casa.

 

 Fiz tudo isso.

 

 Depois, com mala na mão, atravessei o caos. Passei por dois ônibus em chamas, uma pedra voadora passou rente  a minha cabeça. Passei a passo lento entre gritos, fogo o estardalhaço dos encapuzados e os cacos de vidro que brilhavam sobre o asfalto. Fui passando qual fantasma sem rumo. Enfim, passei.
 Aportei num local tranquilo onde havia gramado e árvores, mas o céu era escuro como breu. Sentei-me sob uma das árvores, abri minha mala, abri meus potes de vidro, daqueles que vêm com maionese, palmitos ou azeitonas, abri-os e deixei que minhas estrelas, minha fatia de lua e meus chumaços de nuvens brancas povoassem aquele céu. E tudo aquilo se multiplicou. Assim, construí minha própria noite estrelada.
Agora, sim, havia clima para um poema.
 Entretanto, não mais que de repente, surgiu diante de mim  um gigante de prata, um gigante de olhos grandesque me fitavam ameaçadores. Então, ele disse:

 

“Que poeta é você, que foge do campo de batalha? Que poeta é você que não grita como fazem seus iguais, apinhando as ruas da cidade? Que poeta é você, que cria uma noite falsa, que falsamente o inspira? Que poeta é você, que acha que poesia só rima com fantasia? Hem! Diga-me! Que poeta é você, que resmungava no início deste texto, desconjurando o caos que o mundo é? Que poeta é você, que acha que abrir os braços e clamar é suficiente?”

 

 Em seguida, o gigante de prata  desapareceu, minhas estrelas de papel caíram sobre a  copa das árvores, assim como minha fatia de lua  e meus chumaços de algodão.

 

 Voltei para a cidade sem mala, sem livros e sem meus potes de vidro, daqueles que vem com maionese, palmito ou azeitonas. Levei comigo apenas meu caderno e minha caneta, e fui com cabeça, olhos, coração e alma abertos.

 

 Voltei para o fogo.

 

DADO CARVALHO
Sorocaba, 28 de janeiro de 2014  –  08:51h

Deixe um comentário

Arquivado em Poesia

CONTOS DO CAOS – ETEL, A DONDOCA

Etel, a dondocaVocê já parou para refletir sobre todas essas pessoas que andam para cima e para baixo nas ruas? É tão grande a multidão de desconhecidos, que, se você passar todos os dias por uma mesma rua, terá a certeza de que não viu nenhum rosto repetido; as pessoas que viu hoje não são as mesmas que viu ontem ou antes de ontem e assim por diante.. Mas de onde vem ou para onde vão todas essas pessoas? Obviamente, algumas vieram de casa para ir às compras, outras estão indo ou voltando do trabalho, outras indo à escola e assim por diante. Entretanto, nunca te passou pela cabeça o fato de uma ou outra pessoa, dessas que compõe a multidão cotidiana das cidades, aparecer do nada, caminhar juntamente com as demais e, de repente, desaparecer pura e simplesmente? Já tentou, por exemplo, caminhar atrás de alguém e perceber que, virando uma esquina, esse alguém simplesmente se lhe escapou aos olhos? Pois é, às vezes é até interessante pensar nessas coisas, mesmo porque já li em livros ou revistas que há pessoas de outros planetas infiltradas no meio da nossa multidão de ilustres anônimos, bem como já me disseram que não só de seres de outro planeta vive a multidão, mas também de fantasmas; espíritos materializados que estão aí a caminhar pelas ruas de nossa cidade. Acho esses fatos simplesmente curiosos.
Ontem, por exemplo, estava descendo a rua de São Bento, quando vi duas mulheres vestidas de preto, caminhando a minha frente. Não sei de onde vieram, mas sei que me pareceram bem estranhas, principalmente no caminhar; andavam com passos firmes, precisos e simétricos. Curioso, apressei meu passo e ultrapassei-as; queria ver-lhes o rosto. Deviam ter, aproximadamente, quarenta anos cada uma. Os olhos eram azuis, de um azul bem claro, entretanto, não piscavam. Os cabelos eram castanhos, bem penteados, e os vestidos pretos que usavam eram do mesmo modelo. Mas não eram gêmeas, pelo menos não idênticas, já que uma não se parecia em nada com a outra.  Pareciam dois autômatos caminhando pela rua.
À noitinha, a mesa estava posta em casa de Bianca Cerdeira de Morais. Jantavam ela, o marido, sua filha, Ana Clarice, e sua sobrinha Etel, que viera de Itapeva para fazer um vestibular para uma certa faculdade cujo nome agora não me lembro. Etel era bonita, 17 anos, um ano mais velha do que sua prima Ana Clarice, com aquela pele de pêssego típica das mocinhas bem tratadas. Entretanto, essa jovem de pele de anjo, mãos de fada e porte de deusa, carregava dentro de si um enorme desgosto; desgosto típico das mocinhas vaidosas e filhinhas de papai: seu nome verdadeiro era Maria Etelvina da Conceição Taylor. E esse Taylor, no rabo do nome era o que mais lhe causava desgosto. “Não sei por que minha mão não me colocou o nome de Elizabeth. O que adianta meu pai ser descendente de desbravadores americanos? Isso é nome que se dê a uma pobre e inocente criança?” Assim, para livrar-se desse nome que ela achava tão feio, passou a usar o apelido de Etel, aliás, esse nome existe (em inglês é escrito com um “h” depois do “t”: “Ethel”), porém, para essa dondoca do interior, tão belo apelido não era suficiente para afastar de si aquele desgosto de ter um nome de “caipira”, segundo suas próprias palavras. Mas a história não ficava aí. Se seu nome a desgostava, seu comportamento desgostava ainda mais os outros. Desculpe, tia Bianca, mas não vou comer desse arroz porque está um tanto aguado, sabe? Prefiro um arroz mais sequinho. O marido de Bianca, , olhou para a mulher sobre o aro dos óculos, mas não disse nada. Entretanto, sua tia Bianca, jamais deixava para depois uma boa resposta. Bem, minha filha, caso você queira um arroz melhor, há um excelente restaurante logo virando a próxima esquina. Caso queira… Etel fez uma caretinha indócil, depois pegou um bife da travessa, examinou de ambos os lados e devolveu-o à vasilha, fazendo uma carinha de nojo.  Comeu apenas algumas folhas de alface, umas rodelas de tomate e um pedaço de torta de frango. O feijão também deixou de lado, Bianca e sua família comiam feijão preto, o que, segundo o parecer de Etel, era um verdadeiro voodoo.  Em sua casa comia bem, sua mãe lhe fazia todas as vontades, portanto, se a filhinha querida quisesse comer caviar, a mãe, que economizava a duras penas seu rico dinheirinho, iria, obviamente, comprar caviar para a filhinha adorada.
Depois do jantar, Etel levantou-se da mesa sem pedir licença e saiu em direção ao banheiro; ia escovar os dentes. Osnival de Morais olhou para a mulher por cima dos óculos. Foi isso que sua irmã criou? Bianca olhou para o marido e apertou os lábios. Ah, se fosse comigo! O bom humor de Bianca já não era mais o mesmo de antes do jantar. Ainda bem que esse estrupício vai ficar só dois dias aqui. Coisa que nunca fiz na vida foi fazer vontade a filho. A Francisca passa fome pra dar a essa menina tudo o que ela quer; se ela estiver com quatrocentos reais na bolsa para fazer uma compra e a Etel lhe pedir um vestido de grife para uma festa, ela deixa a compra de lado e vai comprar o vestido pra filha. E é por isso que eu não canso de avisar pra essa daqui (apontou Ana Clarice): só dou o que eu posso; quando ela começar a trabalhar, aí, sim, pode ter o que quiser ou o que seu ordenado lhe permitir. Osnival de Morais mastigou um “tá certo” entre os dentes e passou a outro assunto. Já apareceu alguma empregada? Bianca disse que havia colocado o aviso no portão há dois dias, mas que, até então aparecera apenas uma, feia suja, com os sapatos cheios de lama, despenteada e falando gíria. Quem é que vai querer um estrupício desse dentro de casa? Ave Maria, credo!
No tempo que Maria Etelvina da Conceição Taylor levou para escovar os dentes e passar fio dental entre eles, duas pessoas tomariam um belo banho, primeiro uma depois outra, claro, e isso deixava sua tia Bianca simplesmente furiosa. Quando saiu do banheiro, foi  para o quarto estudar; Bianca alojara a sobrinha no quarto de hóspedes, contudo alguma coisa ainda incomodou a mocinha. Foi até a sala onde Osnival estava vendo o noticiário da noite e pediu-lhe que abaixasse o som da TV, que estava atrapalhando a concentração dela no estudo, afinal, tenho prova amanhã, Tio Osni. O bom tio aceitou o pedido da sobrinha e abaixou o volume da TV, mas Bianca não gostou nada daquilo; pegou o controle remoto e aumentou novamente o volume da TV. Ela tá pensando o quê? Que tá na casa dela? Naquele momento, Etel, que já estava novamente em seu quarto estudando, lançou um “filha da puta” em pensamento e fixou um olhar duro na parede do quarto. Um dia, eu ainda vou ser rica, um dia, eu ainda vou ter tudo o que quero e nunca mais vou precisar desses pobres de merda, nem que, para isso, eu tenha de vender minha alma ao diabo!
 Naquele momento, ouviu-se a campainha da porta. Bianca levantou-se e foi atender. Boa noite. A mulher vestida de negro, com aqueles olhos azuis muito claros, mas que não piscavam, disse que tinha visto a placa e que estava interessada no emprego, e foi por isso que Bianca mandou Osnival baixar o volume da TV.  À primeira vista, aquela candidata a empregada pareceu muito cara aos olhos de Bianca: mulher bem vestida, pele tratada, cabelos bem penteados, vestida com discrição e falando um português correto. Bianca fê-la entrar e apresentou-a ao marido. Depois dos cumprimentos de praxe, de uma conversa que durou cerca de quinze minutos e de uma bem escrita carta de apresentação, Aurélia de Morais Camargo estava contratada como empregada da casa.
 Voltaremos, oportunamente, ao nosso relato.

Deixe um comentário

Arquivado em Prosa

CONTOS DO CAOS – PEIXE ASSADO

Peixe assado

Emerenciada Taylor de Oliveira gabava-se de ser descendente de piratas ingleses, daqueles que enchiam seus navios de provisões, saíam do continente europeu e tomavam a direção das Américas a fim de saquear os incautos. O mais engraçado é que Emerenciana guardava um caderninho muito antigo (antigo, sim, porém jamais do século XVI) alguns textos pouco inteligíveis e um desenho daquele que seria Long John Taylor, um grande, corajoso e poderoso pirata inglês. Bem, é claro que nossa madame Taylor estava fantasiando os fatos; talvez tivesse lido A Ilha do Tesouro, de Robert Louis Stevenson, e tivesse achado bastante sonoro o nome de Long John Silver, o da perna de pau, cozinheiro da escuna Hispaniola. A partir daí, deve ter inventado a história. Contudo, o que prova que tudo o que se passava na cabeça de Emerenciana era apenas fantasia é o fato de Long John Silver ter sido um homem sagaz e de ideias brilhantes, o que, em muito, faltava à nossa personagem.

Pois é. Quando Emerenciana Taylor se casou com Paulo de Oliveira, um pequeno desgosto anuviou seus olhos: aquele “de Oliveira” logo após seu pomposo nome. Mas, enfim, fazer o quê? São coisas da vida, já que a mulher teria naqueles tempos, de usar o nome do marido. Entretanto, quando lhe apresentavam alguma pessoa, a nossa heroína limitava-se a dizer apenas os dois primeiros nomes. Prazer, Emerenciana Taylor. O resto ela não dizia.

Jorgina Teles de Mendonça estava conversando com Emerenciana no sofá da sala. Nossa personagem principal gabava-se, também, de só fazer aquilo que queria e de que gostava. Assim, quando o marido lhe pediu, pela primeira vez, um prato diferente, um cuzcuz, Emerenciana não tibubeou. Não faço, bem, eu não como. O marido tentou um revide. Mas eu como, Merê! Emerenciana Taylor explodiu nesse dia. Não me chame de Merê, eu já te falei que não gosto que me chame desse nome. Eu sou Emerenciana Taylor, entendeu? E se quiser cuzucuz, vá procurar com suas negas.

Você fez isso com ele, Emerenciana? Deixou o coitado com vontade de comer cuzcuz? Você não devia fazer isso, marido foi feito pra gente cuidar. Quando ouviu isso da boca de sua amiga Jorgina, Emerenciana Taylor de Oliveira soltou uma gostosa gargalhada. Era só o que faltava, eu gastar meu tempo no fogão, fazendo um negócio que eu não como! Não, querida, aqui eu só faço pratos que eu como. A última palavra de  Jorgina tinha um tom de piedade. Judiação!

Um outro dia, Paulo Soares de Oliveira, chegou em casa com um belo peixe (não entendo nada de peixe, só sei que esse era dos grandes). Olha, querida, o que trouxe pra gente. Vamos assar esse peixe amanhã. Emerenciana sequer quis olhar para o peixe. Você sabe muito bem que eu não como nenhum tipo de peixe, Paulo. Se quiser, dê para algum vizinho, porque eu não vou preparar peixe nenhum. Paulo saiu de casa resmungando, levou o peixe de volta ao carro, deu partida e saiu.

O tempo continuou seu trajeto, evelhecendo o mundo, mudando as estações do ano e bordando algumas rugas iniciais no rosto de Emerenciana. Enquanto a terra rodava, Paulo Soares de Oliveira acabou-se por acostumar-se com o comportamento da mulher. Benhê, você come costelinha de porco? Ah, costelinha de porco, eu come, benhê, pode trazer.

Nunca mais Paulo lhe pediu para fazer cuzcuz ou peixe assado. Emrenciana exultava com sua vitória sobre os homens mandões e autoritários.

Benhê, amanhã vou pro rancho pescar, viu? Agora não precisava mais esperar que a mulher lhe dissesse “vá, mas não traga peixe para cá”. Ele sabia que naquela casa não podia entrar nenhum “fruto do rio”.

No dia seguinte, um sábado, Paulo pegou o carro e foi para o rancho. Disse a Emerenciana aquilo de sempre, que só voltaria na segunda.

O sábado estava ensolarado, bonito, não muito quente e ainda com uma aragenzinha agradável. Paulo estava sentado na beira do rio quando fisgou um belo exemplar. Opa! Esse aí tá bom demais. Voltou ao rancho com o peixe. Olha, meu amor, olha só o tamanho.

Jorgina admirou o peixe, deu um beijo na boca de Paulo e disse que ia prepará-lo do jeitinho que Paulo gostava. Amanhã vou fazer cuzcuz, viu, meu amor?

E saborearam seu delicioso peixe. Depois, deitaram-se na rede enquanto o sol bocejava no alto da montanha. Amanhã vai ter cuzcuz.

Tenho dito.

DADO CARVALHO

Sorocaba, 01 de janeiro de 2014

Deixe um comentário

Arquivado em Prosa

CONTOS DO CAOS – E VIVA O ESPÍRITO DE PORCO

Espírito de porcoSe você tomar um dicionário e procurar o significado do termo “espírito de porco”, encontrará pouca coisa a respeito. No Michaelis, por exemplo, encontrei apenas isso:  E. de porco: pessoa antissocial, de comportamento maligno. Na Wickpedia, vi um texto um pouco mais longo: Espírito de porco é uma expressão idiomática utilizada para se referir a uma pessoacruel, ranzinza, que se especializa em complicar situações ou em causar constrangimentos. É exatamente sobre esse termo que eu quero discorrer: “causar constrangimentos”, aliás, nada melhor do que isso para deixar o espírito de porco feliz da vida.

Imaginem vocês que a noiva do espírito de porco foi convidada para ser madrinha de outra noiva. Ficou feliz da vida, madrinha de uma grande amiga e tal. E o padrinho, obviamente, seria o seu parceiro, esse que estamos chamando de espírito de porco. Mas, acontece que o parceiro, ou melhor, o noivo da madrinha da noiva, que passaremos a chamar de Renato (nome fictício, viu?), alegou que não tinha um terno decente para a cerimônia. Disse que o único terno que tinha estava ruço e surrado. Não, não, não vou não. Pode ir com outro qualquer, um primo seu etc., mas eu não vou.

Interessada em fazer parte da cerimônia do casamento da amiga ao lado de seu noivo, Patrícia, a noiva do espírito de porco, ou seja, o Renato, deu-se ao trabalho comprar um terno (não muito caro, mas decente), para que seu noivo não fizesse feio no casamento da amiga. Foi até uma loja, escolheu um belo terno, Renato experimentou a roupa nova em casa e não foi preciso fazer nenhum ajuste.

Tudo bem. No dia do casamento, Patrícia chegou à igreja sem Renato. Estava linda! Maravilhosamente vestida. Ligou umas três vezes para o noivo, mas o e espírito de porco só respondeu à ligação na quarta vez.  Pode ir na frente, meu bem, eu estou com um probleminha aqui no carro, mas já, já estou aí. Noiva sempre atrasa mesmo, né? Por sorte, a noiva atrasou como sói acontecer. Depois de uma espera de vinte minutos, Renato apareceu na igreja com a barba por fazer e envergando o seu terno ruço e surrado. Este é o perfeito espírito de porco. Além disso, chegou com cara de poucos amigos; emburrado como criança a quem o pai não deixou brincar com o brinquedo novo.

Um outro espírito de porco, dessa vez uma mulher, estava numa festa que não comemorava nada. Era apenas uma reunião de família e amigos num domingo pela manhã; espetinhos de carne, de frango, linguiça, maionese, arroz, salada, enfim, contribuições de todos que estavam ali reunidos. Durante a reunião, conversa vai, conversa vem, o dono da casa declarou que, dali a 15 dias, faria outra festa, agora em homenagem a seu filho mais velho. Seria aniversário dele. Imediatamente, os presentes levantaram a mão e cada um foi dizendo o que traria para a festa. Eu trago a linguiça! E eu, espetinhos de carne e de frango. Uma moça quarentona declarou que traria um cuscuz bem grande, para que todos se fartassem. Angelina Soares Taylor, a mulher que mencionamos no início deste parágrafo, viúva de um americano que a deixara em boas condições financeiras, disse que traria salgadinhos, mas antes perguntou para quantas pessoas. O dono da casa respondeu que seriam em torno de umas trinta pessoas, porque, além dos amigos de costume, viriam ainda os amigos do filho. Tudo bem. Quinze dias depois, chegaram os amigos, cada um trazendo o que havia prometido. Angelina Soares Taylor também não faltou a sua promessa: trouxe uma bandejinha de isopor com uma dúzia de coxinhas. Ninguém disse nada, mas, a partir daquele momento, a viúva do americano passou a ser taxada como um autêntico espírito de porco.

Everaldo Freitas de Souza levou o amigo a assistir uma peça de teatro em São Paulo. Tinha dois ingressos, no fim, a mulher não quis ir, e ele, para não perder o ingresso, convidou Faustino de Brito, colega de serviço, para ir com ele. Tinham ambos a mesma idade: 35, mas Faustino era solteiro. Após o espetáculo, como Everaldo havia levado sua câmara fotográfica, registrou um belo momento com Faustino ao lado da atriz principal, famosíssima, e depois com um dos atores, também não menos famoso. Depois, Faustino tomou da máquina e tirou uma foto de Everaldo diante do cartaz da peça (ele não se interessava muito por tirar foto com artistas). Voltaram para Bocarosa, cidade onde moravam. Dois dias depois, ao chegar ao trabalho, e depois de ter revelado as fotos (a câmara não era digital), Faustinho foi até Everaldo e lhe entregou a foto que tirara dele diante do cartaz da peça. Mas e as outras? Esqueci. E saiu da sala do colega. Eis aí mais um perfeito espírito de porco. Causou constrangimento porque sabia o quando o colega estaria curioso para ver aquelas fotos em que Faustino posara com os atores. O espírito de porco é assim, podendo desagradar, por que agradar? Tenho dito.

DADO CARVALHO

28 de dezembro de 2013

Deixe um comentário

Arquivado em Prosa

CONTOS DO CAOS – O MENINO DOS PASSARINHOS

Menino com passarinhosTome a cabeça de um anjo, imagine o que seja para você o rosto de um anjo; naturalmente que uma das coisas mais belas de nossa imaginação e da imaginação dos pintores, escultores e desenhistas. Agora, pegue essa cabeça, coloque sobre o pescoço de um garotinho de nove anos de idade e veja como ele fica. Lindo, não é mesmo?

Certo. Agora, venha comigo até este lado da casa. Sim, sim, a casa é deveras comprida. Tem uma porta e não sei quantas janelas de cada lado dessa porta.  Dizem que foi construída nos idos de 1920; parece que tem 17 quartos, mas, como nunca entrei lá, não posso provar. Então, agora que estamos aqui, numa das paredes laterais da casa, nesse lado que os antigos chamavam de “eitão”, mas cuja pronúncia correta é “oitão”, observe quantas gaiolas você vê penduradas na parede.

Assustou-se, com certeza. Mas, aos poucos, você vai se acostumando. Admita, para si, que 120 gaiolas não são nada mais que 120 gaiolas, portanto, nada de extraordinário nisso.

Ah, sim, o menino. Ia me esquecendo. Chama-se Rodrigo de Oliveira Taylor. Dizem que o Taylor vem do avô, que era inglês naturalizado brasileiro. Mas, agora que você já viu as gaiolas, venha comigo até uma dessas janelas que ladeiam a porta da casa. Vê aquela senhora, sentada numa cadeira de balanço, fazendo crochê? Então, ela se chama Esmeraldina Fonseca Taylor; é a avó do menino. E hoje ela não amanheceu muito bem. Dizem que está preocupada, com pressentimentos ruins. É uma mulher muito sensível, sabe? Dizem os espíritas que ela tem mediunidade, mas nunca quis saber disso. É daquele tipo de católica fervorosa, para quem toda e qualquer outra religião não é “coisa de Deus”.

Você deve ter percebido que o menino Rodriguinho, como é chamado carinhosamente em casa, passou pela avó e tentou conversar com ela, porém, sem êxito. Não estou me sentindo bem hoje, meu querido. A vovó está com um pressentimento muito ruim hoje. O menino ouviu as palavras da avó e foi até o oitão, onde ficavam as 120 gaiolas. Ah, esqueceu-me dizer que, encostada ao oitão, havia uma escada de madeira por onde o garoto subia para tratar dos passarinhos nas gaiolas que ficavam mais no alto. Pois é. Ele subiu nessa escada que eu coloquei agora e abriu a portinhola de uma gaiola (puxa vida, não devia ter usado a palavra portinhola, mas agora já foi; que vá com rima e tudo). Perceba que ele está falando alguma coisa ao canarinho. Agora, como você pode ver, o canarinho saiu voando e pousou na janela de onde vemos sua avó fazendo crochê com o olhar derreado e triste. Viu como o canarinho começou a cantar? E canta divinamente. Viu como a velha senhora levou a mão ao coração e exibiu um sorriso fulgurante? Pois é, daí o canarinho voltou à gaiola, e o menino, que não havia descido da escada, fechou-a novamente.

O dia da velha senhora, avó do menino, mudou da água para o vinho, e ela passou o resto dia alegre e assobiando. Para ela, pássaros que entram em casa, ou mesmo esse que pousou em sua janela e cantou, são sempre prenúncio de coisas boas, boas notícias, boas revelações.

Você já ouviu falar em dona Mariazinha Ferraz? Pois é, dona Mariazinha é daqueles tipos que gostam de defender os animais; não gosta de passarinhos presos nem de cães maltratados. Qualquer bicho que ela encontrar na rua, trata de laçar e levar para seu abrigo particular até que o dono dê falta do bichinho e vá buscá-lo. Mariazinha entrega o bichinho ao dono, mas cobra uma taxa, que ela chama de “taxa de castigo”, para que a pessoa nunca mais deixe seu “pet” solto pelas ruas.

Há alguns dias, chegou a seus ouvidos a notícia de um certo menino que mantinha 120 passarinhos em cativeiro. Mariazinha sabia que não podia invadir a casa alheia e soltar os bichinhos, portanto, bateu palmas no portão e foi severa com a mãe do garoto. Se esses passarinhos não estiverem voando em 24 horas, eu voltarei aqui com a polícia e um mandado de segurança, ouviu bem? Tanto a mãe quanto o garoto tinham ouvido perfeitamente, mas, antes que Mariazinha se retirasse, o garoto deu dois passos à frente. Pode deixar, minha senhora, que eu mesmo solto meus passarinhos. O rosto de Mariazinha ficou branco que nem cal quando viu os olhos do menino. Não eram olhos de anjo. Não havia mais a parte branca que, agora, era vermelha. Mas isso não importa. Ou importa? Bem, o que importa mesmo, nesse momento, é que Mariazinha sentiu um calafrio, deu “tchau” à mãe e ao filho e foi-se apertando o passo.

No dia seguinte, corria a notícia de que a velha Mariazinha havia sido encontrada morta dentro de sua própria casa, com as roupas todas puídas, dois buracos no lugar dos olhos e o rosto todo estraçalhado, assim como as mãos e as pernas. Ninguém entendeu nada daquilo. Nem a polícia. As vizinhas faziam comentários e respondiam às perguntas do delegado. Não, senhor, aqui ninguém ouviu grito nenhum. Nem os cachorros latiram, e olha que ela deve ter uns dez cachorros aí na casa.

Nesse mesmo dia, a mãe do menino Rodriguinho, quis saber por que seus passarinhos estavam com o biquinho e as penas sujas de sangue.

Historinha boba, claro, mas deu vontade escrever e eu não perdi tempo. Tenho dito.

DADO CARVALHO

Sorocaba, 28 de dezembro de 2013

Deixe um comentário

Arquivado em Prosa

CONTOS DO CAOS – A ESCOLHA DE JOCASTA

Bonecas quebradasJocasta Taylor estava começando o seu desjejum quando o celular tocou. Pegou o aparelho (ou o dispositivo, como se fala hoje), que estava ao lado de sua xícara e atendeu. Depois que ouviu a notícia, sua aparência adquiriu um aspecto de desolação. Ah, não! Tem certeza, Heloísa? Mas justo hoje? Agradeceu e desligou o celular. Continuou tomando seu café e, ao mesmo tempo, resmungando. Era só o que me faltava. Justo hoje me dizem que não tem conserto mesmo e que já perdeu toda a energia. Suspirou no exato momento em que entrava na casa uma moça alta, bonita e de andar gracioso. Bom dia, mamãe! Não beijou a face da mãe. A mãe deu outro suspiro. Seria um ótimo dia se eu não tivesse recebido a notícia que recebi. A moça adivinhou prontamente. Já sei, o papai! Morreu? A mãe não gostou da palavra. Ai, que termo horrível, Luciana, não se usa mais essa palavra hoje em dia. Luciana sentou-se para tomar seu café. A mãe quis saber como havia sido a noite. Até que essa noite foi tranquila. Pouca gente escangalhada, e conseguimos consertar todos. Jocasta Taylor enxugou os lábios com um guardanapo de papel e levantou-se. Preciso tomar as providências. Luciana quis saber mais alguns detalhes. Vai ter velório? Novamente,  Jocasta não gostou do termo que a filha usara. Hoje você parece mesmo que foi pro fundo do baú. Velório, não, Luciana, assistência. Sim, sim, haverá. Vou pegar o talão de ingressos. Luciana quis ajudar. Quer que eu fique na porta vendendo os ingressos? Jocasta gostaria muito, mas… Você não terá de recuperar suas energias? Luciana já havia pensado num jeito. Tomo uma pílula das vermelhas e tudo bem. Pode ir; irei em seguida.

***

Taças, salgadinhos, garçons elegantes deslizando entre os presentes. A urna onde repousava o corpo de Geofrey Taylor não estava ornada com flores. O defunto estava vestido sobriamente, ainda exibindo no rosto sem rugas um leve, mas leve mesmo, sorriso. Uma amiga de Jocasta aproximou-se. Então, amiga, não teve conserto mesmo? Jocasta sorriu e pegou a mão da amiga entre as suas. Não, não teve jeito.  A peça que lhe faltava não se fabrica mais. E depois, amiga, o Geofrey já estava com cemto e cinco anos, portanto, já não existiam mais peças para ele. O engenheiro Leon Chaves bem que tentou recuperar as peças dele, mas, como você bem sabe, chega um tempo em que tudo se desgasta.

***

Toda a estrutura de Geofrey Taylor fora derretida no fim da tarde a uma temperatura de não sei quantos graus Celsius ou Fahrenheit, não entendo dessas coisas. Os presentes foram embora. Agora, Jocasta Taylor, sentada à mesa de jantar, contava o dinheiro. Naquele momento, Luciana entrou. Deu bastante, mamãe? Antes de dizer qualquer palavra, Jocasta respondeu com um sorriso. O suficiente para comprar um outro papai pra você. Não precisa ter pressa mamãe. Aliás, ainda precisamos esperar sete dias para podermos comprar um novo. Quer que vá ajudá-la a escolher? Jocasta não quis. Deixe comigo. Saberei escolher o melhor.

***

Dentro de cada redoma de vidro havia um homem. Os tipos? Vários. Desde os loiros espadaúdos, de barriga tanquinho aos mais cavalheiros, discretos e de cabelos gris. A moça que acompanhava Jocasta Taylor sugeriu-lhe um tipo. Jocasta olhou com cuidado, mas um loirão de barriga tanquinho não saía de sua cabeça. Talvez pudesse rejuvenescer mais o rosto para não dar a impressão de u’a mãe acompanhada do filho, quando estivesse com ele nas ruas. Isso era coisa fácil com as aplicações do doutor Cassiano. Poderia voltar a ter a cara de uns trinta, ainda que o povo falasse mal dela. Por fim, sob o olhar atônito da moça que a atendia, Jocasta fez sua escolha. A moça disse que a entrega seria feita naquele mesmo dia, à tarde.

***

Jocasta Taylor abriu a porta e fez um gesto para que o rapaz entrasse. Ele trazia duas malas com roupas e objetos pessoais. Era bonito, alto, loiro, espadaúdo, musculoso, barriga tanquinho, um gato, como se costumava falar em outros tempos. Jocasta levou-o até seu quarto onde desfez suas malas e acomodou no armário as roupas de seu novo marido. Luciana chegou no comecinho da noite e logo foi apresentada ao seu novo papai. Cumprimentou-o com olhar de poucos amigos e depois chamou a mãe a um canto. Onde já se viu, mamãe, você comprar um homem desse tipo, logo depois da destruição do papai! O que as pessoas não vão dizer ao ver você desfilando pelas ruas com esse homem! Vão dizer que a senhora não gostava do papai! Por que não escolheu um que tivesse uma cara mais respeitável? Mas Jocasta Taylor tinha outras ideias na cabeça. Vou rejuvenescer meu rosto, ou talvez até o corpo todo, Luciana. Mas Luciana era contra essa ideia, apesar de ser jovem, com seus 73 anos, ainda mantinha preconceitos de outros tempos. Não se pode rejuvenescer e envelhecer a qualquer momento, mamãe. O que as pessoas não vão dizer? Vão dizer que você é uma inconsequente, uma volúvel, não é mesmo? Mas Jocasta Taylor não queria saber de nada daquilo. Queria mais era curtir seu novo marido. Não preciso de homem que me ajude a criar filhos nem que me sustente a casa, portanto, já que atualmente estamos vivendo mais, vamos curtir mais a vida, não é verdade? Todas minhas peças estão ótimas, tinindo de boas, portanto, deixe-me viver minha vida como eu quiser. Você é que devia mudar um pouco essa cabeça, talvez trocar algumas pecinhas, quem sabe? Afinal, estamos no século X… E Jocasta Taylor viveria por muitos e muitos anos ao lado de seu gato, como se dizia em outros tempos.

DADO CARVALHO

Sorocaba, 27 de dezembro de 2013.

Deixe um comentário

Arquivado em Poesia

CONTOS DO CAOS – ISAURA E HELENA

violência urbana

ISAURA E HELENA

A mulher ouviu o telefone tocar. Obviamente, foi atender. Do outro lado da linha estava sua amiga Isaura. Oi, Isaurinha, como vai, querida? Nossa, há quanto tempo você não aparece. O que aconteceu? Ficou milionária de uma hora para outra? Do outro lado da linha, Isaura soltou uma risadinha amigável. Ai,  amiga, quem dera que eu ficasse milionária, mas… quem sabe um dia, né. Na verdade, o assunto de Isaura era bem outro. Sabe, Heleninha, você tem ideia de onde é que eu posso comprar um taco de beisebol? Heleninha não tinha a menor ideia. Nunca entrara em nenhuma loja de artigos esportivos. Mas ficou curiosa com o que lhe havia dito a amiga Isaura. Você vai jogar baseball, Isaurinha? Mas que chique. Olha, eu estou achando que você ficou rica mesmo e não quer falar. Mais risadas, entretanto, a última coisa em que Isaura poderia pensar era em jogar baseball. Ora, ora, era só o que faltava. O destino do taco de baseball era bem outro. Sabe, Heleninha, o meu filho, de 15 anos, vai participar de um protesto hoje, no centro da cidade, e ele faz parte do grupo dos encapuzados, sabe? O capuz, com aqueles dois buracos para os olhos, já comprei, mas preciso de um taco de baseball para que ele possa quebrar os vidros das portas das agências bancárias, entende? E, no caso, acho que um taco de baseball fica muito mais chique, você não acha? Não, Helena não achava, sua opinião era outra. Não, Isaurinha, eu acho que você não precisa gastar com esse tipo de coisa. No caso, devido à idade de seu filho, seria mais ideal que ele usasse  seu próprio skate para depredar uma agência bancária. Um skate está muito mais de acordo com a idade dele, você não acha?

Isaura suspirou aliviada. Como era bom aconselhar-se com as amigas! Helena sempre tinha umas ideias originais. Por que ela não pensara nisso antes? Um skate usado como arma! Sim, claro, porque ela, Isaura, jamais, em tempo algum, iria deixar seu filho depredar uma agência bancária com um pedaço de pau qualquer. Tenho dito.

DADO CARVALHO

Sorocaba, 16 de novembro de 2013

Deixe um comentário

Arquivado em Prosa